
"Temos o direito a sermos iguais quando a diferença nos inferioriza. Temos o direito a sermos diferentes quando a igualdade nos descaracteriza. As pessoas querem ser iguais, mas querem respeitadas suas diferenças. Ou seja, querem participar, mas querem também que suas diferenças sejam reconhecidas e respeitadas."
Boaventura de Souza Santos
ATIVIDADE DE RECUPERAÇÃO DO DOSSIÊ
Estudo dE caso
A história de Peter
Dados gerais:
Peter é um menino de classe média, com idade aproximada de 8 anos, portador de Síndrome de Down e que, pela primeira vez, está ingressando na escola regular.
Família:
A família de Peter demonstra lidar bem com suas limitações, estimulando-o e mostrando-se carinhosa, atenta e possibilitando-lhe experiências que desafiam seus limites e provocam possibilidades de aprendizagem.
Relacionamento inicial:
No começo, Peter apresentou algumas dificuldades de relacionamento com o novo grupo, mostrando-se um tanto agressivo. Apresentava reações muito instaveis e pequenos fatos desencadeavam nele atitudes violentas. Nesse primeiro momento, não participava das atividades desenvolvidas pela turma, ficando alheio a elas.
Inclusão inicial:
O grupo, no primeiro momento, aceitou a presença de Peter, mas não o acolheu. Ainda havia questionamentos do tipo: “Por que ele precisa estudar junto com a gente se ele provavelmente vai aprender muito pouco”. Tambem foi possivel perceber que as outras crianças demonstravam medo de Peter, o que era natural, já que o menino realmente tinha atitudes agressivas durante seus “ataques”. A professora atuava como uma controladora das reações e atitudes do menino, nesse primeiro momento, deixando de propor atividades e possibilitar condições para que ele interagisse com o grupo.
Aprendizagem:
Numa situação de inclusão, tudo é aprendizagem. Acredito que houve aprendizagem desde a chegada de Peter naquele grupo. Tanto é que a professora passou a questionar sua ação diante dos desafios que eram trazidos pelas atitudes de Peter. Logicamente, a partir do segundo mês de convívio, começou a delinear-se a aprendizagem formal, no que tange à leitura e à escrita, mas, para isso ocorrer, foi necessário que a professora entendesse que Peter podia ir além e passasse a estimulá-lo e a oferecer oportunidades para que ele fizesse as suas descobertas e as suas construções. Uma excelente ação da professora foi a conversa que teve com a turma sobre a situação de Peter, o que os levou a agir de forma mais coletiva e sensível com ele, auxiliando-o em seu desenvolvimento e valorizando suas aprendizagens e suas atitudes positivas. Esse, ao meu ver, foi o momento em que Peter foi realmente incluído naquele grupo do qual passou efetivamente a pertencer. Por esse motivo, a aprendizagem passou a efetivar-se daquele momento em diante e todos puderam crescer e desenvolver-se através das experiências vivenciadas.
Concentração:
Inicialmente, Peter não demonstrava concentrar-se em nenhuma atividade. Envolvia-se com situações e atividades bem próprias e aparentemente ignorava o que o grupo estava fazendo. Aos poucos, entretanto, na medida em que passou a ser respeitado, valorizado e estimulado, começou a realizar as atividades com crescente concentração. Cabe ressaltar que essa concentração também apresentava limites, pois percebia-se que, quando se aproximava o final do período letivo, Peter passava a apresentar algumas atitudes mais agressivas e tinha mais dificuldades em concentrar-se nas tarefas. Na análise da professora, isso acontecia porque chegava a hora de ir para casa e deixar os amigos, mas acredito que isso acontecia também devido ao cansaço normal de um dia de atividades.
Autonomia e independência:
No início, Peter era bastante dependente do auxílio da professora e dos colegas, principalmente das meninas, que o tratavam como se fossem suas mães. Aos poucos, foi conquistando autoconfiança, e, com isso, autonomia e independência, realizando suas tarefas de forma mais segura e autônoma.
Acessibilidade:
Não percebi na escola nenhum diferencial no que se refere à acessibilidade. Parecia uma escola como qualquer outra, sem nenhuma adaptação perceptível de acessibilidade que a caracterizasse como uma escola inclusiva.
Práticas pedagógicas inclusivas:
Inicialmente, percebi que a professora parecia encarar a presença de Peter na turma como uma tarefa difícil da qual ela deveria dar conta, e isso a assustava muito. Sua preocupação inicial foi apenas a de controlar as atitudes agressivas de Peter, impedindo que ele se machucasse ou machucasse ou colegas e zelando pelo seu bem estar, assim como pelo bem estar da turma. Não percebi, nesse período, ações que efetivamente propiciassem m a inclusão do menino no grupo e provocasse situações de aprendizagens para ele. Na medida em que a professora passou a refletir mais sobre as possibilidades de Peter, começou a estimulá-lo, criando oportunidades de interação e de participação e a explorar seu potencial. A partir daí, percebi as práticas educativas inclusivas na rotina daquela turma, o que desencadeou muitas aprendizagens a todos os sujeitos.
Encaminhamentos:
Não houve encaminhamentos que se percebesse no sentido de buscar atendimento especializado para Peter, mas houve alguns encaminhamentos pedagógicos que foram decisivos. Destaco a conversa que a professora teve com a turma, na qual foram explicadas as necessidades de Peter e as suas condições, trazendo o grupo de forma solidária para a tarefa de auxiliá-lo, compreendendo suas reações e seus limites, mas sem permitir que ele impusesse suas atitudes ou suas vontades de maneira descontrolada sobre o coletivo. Essa conversa teve papel fundamental no processo de inclusão de Peter.
Aprendizagens da turma:
No final do filme, os próprios alunos relatam o quanto aprenderam com a oportunidade de relacionar-se com Peter. Colocam que puderam rever seus conceitos e suas relações com pessoas “diferentes deles”. Criam vínculos de carinho e amizade com o menino e todos sentem-se de certa maneira responsáveis inclusive pelo prêmio que Peter recebe no final do período letivo, como aluno destaque do terceiro ano.
Aproximação das idéias dos textos e filme:
Quando refletimos sobre a inclusão de pessoas com necessidades educacionais especiais na escola comum, precisamos, em primeiro lugar, repensar os papéis de cada um dos sujeitos envolvidos nesse processo, abrindo mão do lugar hierarquicamente privilegiado que recebe historicamente o professor, ingressando numa posição em que precisamos pensar e agir de forma coletiva, dando voz a todos os sujeitos e contando com a ação de todos eles. Isso pode ser verificado no filme, a partir do momento em que a professora compreende que somente com o apoio de toda a turma poderá realizar um trabalho efetivo com o menino Peter, e é o que nos aponta Baptista (2004):
“A história da educação mostra, com facilidade, como os lugares de quem ensina e de quem aprende são identificados por meio de diferenças hierárquicas que fizeram com que o educador não devesse pressupor o outro (aluno) como interlocutor, no sentido pleno da palavra. Se essa reflexão é válida para a educação em geral, torna-se ainda mais enfática quando o aluno se constitui como um sujeito marcado pela “incompletude”, pela “diferença”, pela “anormalidade”. Quando consideramos o atual estágio de conhecimento em educação especial, percebemos que a mesma tem sido uma área na qual a discussão relativa à ética e ao diálogo pode ressignificar o conhecimento sobre os sujeitos com necessidades educativas especiais, assim como redimensionar as perspectivas de intervenção educacional.”
Nesse sentido, também é importante que todos os sujeitos estejam dispostos a perceber as limitações e as necessidades especiais dos sujeitos como existentes e de alguma forma superáveis, para que, assim, sejam criadas as possibilidades de interação necessárias para a efetiva inclusão das pessoas com necessidades educativas especiais.
Não há inclusão sem que haja o espaço para a discussão, a investigação e a descoberta. Assim, é importante que as práticas inclusivas estejam além da simples legislação. Que se tornem palpáveis nas práticas pedagógicas e nas rotinas das escolas, mesmo com todas dificuldades de entendimento, mesmo com as sempre reiteradas argumentações que insistem em perpetuar a idéia de que a escola não está preparada para a inclusão e que tampouco o professor o está.
A legislação, assim como todos os estudos atuais, apontam para a obrigatoriedade da inclusão dos alunos com necessidades educacionais especiais na escola regular, propiciando, assim, o convívio estimulador com crianças ou adolescentes da sua faixa-etária, facilitando a sua socialização e suas possibilidades de aprendizagem. É, portanto, um direito do aluno com necessidades educacionais especiais estar na escola, na sala de aula, com seus colegas e seus professores, sendo acolhido e tendo a oportunidade de vivenciar as mesmas experiências e as mesmas aprendizagens que os outros alunos. Ora, se todos têm o direito constitucianal à educação, sem distinção, isso significa que a escola – principalmente a escola pública – é de todos e para todos. Não podemos mais esperar que alguém magicamente nos prepare para receber alunos com necessidades educacionais especiais. Esses alunos não podem esperar e têm o direito de estar na escola já. Precisamos ter em mente que o caminho se faz ao caminhar, e que devemos estar prontos a aprender junto com essas crianças em nossas salas de aula, auxiliando-as a superar suas dificuldades, interagindo com elas e construindo na prática uma educação verdadeiramente inclusiva.
Comments (3)
Gi said
at 11:43 am on Aug 13, 2009
Olá Simone ... Ao lermos tua atividade foi possível observar que tua compreensão se aproxima das construções esperadas. Apresentaste um texto bem fundamentado teoricamente,procurando abordar de forma descritiva e analítica o contexto que se refere a vida familiar e escolar do aluno Peter, dando destaque para a evolução de suas aprendizagens e para a ação da escola e da professora. Percebemos, também, que apesar da divisão em conceitos, não perde a noção do todo, o foco de tua análise permanece vinculado à temática proposta na atividade de recuperação, colocando tuas opiniões, comentários e problematizações aos aspectos solicitados na atividade, articulando aos conceitos estudados nesta disciplina, atingindo os objetivos propostos para este eixo. Qualquer dúvida entre em contato. Abs, Professora Lenise e Gi.
_kin_ said
at 3:17 pm on Jan 27, 2011
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_kin_ said
at 10:42 am on Mar 27, 2011
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